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Quando o Idoso “Finge” Sofrimento: Entenda o Comportamento e Como Lidar :
O comportamento de idosos que simulam doenças, conflitos ou até agressões pode gerar indignação, culpa e exaustão nos familiares. Muitos filhos relatam a sensação de que o idoso “não se preocupa com o impacto que causa” , mas a explicação raramente é simples ou superficial.
Neste artigo, vamos compreender esse fenômeno sob a perspectiva da psicanálise e da neurociência, oferecendo uma leitura mais profunda e menos reativa.
1- Por que alguns idosos parecem criar situações de sofrimento?
Antes de rotular como “manipulação”, é essencial entender que esse comportamento pode ter diferentes origens:
Na psicanálise, o sujeito se constitui no olhar do outro. Com o envelhecimento, há perdas importantes:
papel social
autonomia
relevância familiar
Criar situações de crise pode ser uma forma inconsciente de recuperar lugar e importância.
O sofrimento passa a ser uma forma de vínculo.
2- Ganho secundário e posição de vítima
Alguns idosos assumem a posição de fragilidade como estratégia relacional:
recebem atenção constante
mobilizam culpa nos filhos
evitam abandono
Esse funcionamento pode se aproximar de traços do Transtorno de Personalidade Histriônica, onde há necessidade intensa de ser o centro das atenções.
Aqui, não é apenas “fingimento”, mas uma forma de manter controle emocional sobre o ambiente.
3- Alterações neurológicas e distorção da realidade
A neurociência mostra que o envelhecimento pode afetar funções como:
memória
julgamento
percepção da realidade
Quadros como Demência e Doença de Alzheimer podem gerar:
paranoia
falsas acusações
interpretações distorcidas
Nesses casos, o idoso não está fingindo, ele acredita no que diz.
4- Transtornos ligados à necessidade de cuidado
O Transtorno Factício também pode aparecer, caracterizado por:
simulação de sintomas
busca constante por atenção
necessidade de ocupar o lugar de doente
Aqui, o sofrimento é uma forma de identidade.
5- Dinâmica familiar disfuncional
Muitos comportamentos não podem ser compreendidos isoladamente.
É comum encontrar histórias como:
pais que foram autoritários e, ao envelhecer, tentam retomar controle
famílias marcadas por culpa e obrigação
vínculos baseados em dependência emocional
O comportamento do idoso pode ser uma continuação de padrões antigos, agora intensificados.
O que a neurociência explica sobre esse comportamento?
Do ponto de vista cerebral, algumas mudanças são relevantes:
Redução da atividade no córtex pré-frontal → menor controle emocional
Alterações no sistema límbico → aumento da reatividade emocional
Comprometimento da memória → confusão entre imaginação e realidade
Essas alterações podem tornar o idoso:
mais impulsivo
mais sensível à rejeição
menos capaz de avaliar consequências
Ou seja, o comportamento pode parecer intencional, mas nem sempre é totalmente consciente.
Como diferenciar manipulação de confusão mental?
Alguns sinais ajudam:
Mais provável manipulação:
comportamento aparece diante de outras pessoas
narrativa coerente
benefício claro (atenção, controle)
Mais provável alteração cognitiva:
discurso confuso ou contraditório
crença rígida mesmo diante de provas
outros sinais de perda de memória
O impacto nos filhos: culpa, raiva e exaustão
Filhos que convivem com esse tipo de dinâmica frequentemente relatam:
sobrecarga emocional
sensação de injustiça
culpa por se irritarem
dificuldade de impor limites
Na clínica, é comum encontrar adultos que ainda ocupam um lugar infantil diante dos pais, mesmo na velhice deles.
O cuidado vira obrigação, e não escolha.
Como lidar com um idoso que apresenta esse comportamento?
Algumas direções importantes:
1. Evite confronto direto
Confrontar pode aumentar o conflito ou a desorganização emocional.
2. Estabeleça limites claros
Cuidar não significa se anular.
3. Busque avaliação profissional
Psiquiatras e geriatras podem diferenciar causas.
4. Trabalhe a culpa
Nem todo sofrimento do idoso é responsabilidade do filho.
5. Observe o padrão, não episódios isolados
O comportamento ao longo do tempo revela mais do que situações pontuais.
Uma leitura psicanalítica final
Muitos desses idosos não sabem existir fora do lugar de:
vítima
dependente
doente
O que aparece como “dar trabalho” pode ser, na verdade, uma dificuldade profunda de sustentar a própria existência sem o olhar constante do outro.
O sintoma, nesse caso, não é apenas um problema, é uma tentativa de vínculo.
Rotular um idoso como manipulador pode ser tão equivocado quanto ignorar comportamentos prejudiciais. Entre a intenção e o sintoma, existe uma complexa rede de fatores emocionais, neurológicos e relacionais.
Compreender isso não elimina o sofrimento dos familiares, mas permite uma atuação mais consciente, menos reativa e mais estratégica.
Se você convive com um pai ou mãe idoso que gera conflitos constantes, desgaste emocional ou situações difíceis de lidar, buscar apoio psicológico pode ser um passo essencial e eu, Jacklen Dantas, estou aqui para lhe ajudar.
O cuidado com o seu pai ou sua mãe não pode acontecer à custa da sua saúde emocional.
Jacklen Dantas - Psicanalista , Neuropsicanalista e Terapeuta de Casais.
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